sábado, 25 de dezembro de 2010

NÃO HÁ DE SER EM VÃO

O discurso não vence
o canhão, mas convence
quem aperta o botão.
  

sábado, 18 de dezembro de 2010

OLEPARTNOC A

Contra? Contra quem?
Os pelos, os rios,
os ventos, o chão,
os rastros, os fios?

Contra? Contra quem?
A ordem, a lei,
toda exploração,
os nobres, o rei?

Contra? Contra quem?
O deus, o sistema,
a voz do patrão,
os signos, o lema?

Contra? Contra quem?
Os mesmos, os outros,
a cor, a exclusão,
os 'ismos', os rótulos?

Contra? Contra quem?
A modernidade,
a luz, a razão,
o sim, a verdade?

Contra? Contra quem?
o som, a grafia,
a lâmina à mão,
a prosa, a poesia?
  

sábado, 11 de dezembro de 2010

INTER-(OU ASTRO)-NAUTA

Ele não gostava muito da rua,
gostava de viajar para a lua.

A sua viagem é bem arriscada,
pois a sua conexão é discada.

Sonhava em ser um astronauta,
enquanto vivia de internauta.

Ele necessitava de um abrigo,
pois faltava-lhe algum amigo.

Ele queria conhecer o espaço,
um ET para lhe dar um abraço.

No computador, era um mestre,
só não via um extraterrestre.

Ele gostaria de ser abduzido,
para, enfim, ser reconhecido.

Achava que poderia ser legal,
se vivesse no espaço sideral.

Sempre será alegre ao sonhar,
porém, triste quando acordar.

Enquanto isso, seu maior amor
ainda é seu amigo-computador.
  

sábado, 4 de dezembro de 2010

NO DOMINGO DE SILVIO SANTOS

No domingo de Silvio Santos
meu telefone começa a tocar,
e quando eu olho no display
era você me ligando a cobrar.
Pensando ser algo importante
atendo sua descarada ligação
mas quando vejo a besteira...
“Compra uma porra d’um cartão!”
É a última frase que eu digo,
ser convidado para o cinema
pra assistir filme americano
e ainda pagar pelo telefonema
é um chute certeiro no saco
que já está cheio com Faustão
e outras porcarias dominicais
que nunca saem da televisão.
Um perfume de terra molhada
anuncia a chuva em meu jardim,
agora fudeu tudo, com a chuva
o jardim nem precisa de mim.
E só agora começo a perceber,
com o meu jardim satisfeito,
que nesse domingo de chuva,
ir ver cinema seria perfeito.
    

sábado, 27 de novembro de 2010

O SOL QUE VEM DO POENTE (excerto)

O garoto, enfim, desperta:
a luz atravessa a janela
como se ferisse seus olhos
ao renascer de mais um dia.

Não foi uma noite insone,
o tic-tac ao seu lado,
nem um galo-tenor
que lhe trouxe o recado:
pois, mesmo sem aviso,
já estava acordado.

Sem ao menos piscar os olhos,
pôs-se a contemplar o sol,
desafiando os raios solares
com a coragem de quem sonha.

O campo de batalha
apenas aguardava
a guerra desse encontro:
aquele que brilhava
contra os olhos nus
daquele que sonhava.

Nos domínios do céu de fogo,
reinava a grande estrela, o sol,
que enviava tropas de raios
ao quarto do jovem ousado.

No quarto atacado,
a sombra resistia;
perdendo mais espaço,
aos poucos se rendia
para contra-atacar
no fim do mesmo dia.
    

sábado, 13 de novembro de 2010

AMPLITUDE COMPACTA

Um canto em cada canto,
sendo amplo mas nem tanto.

Compacto: sem nenhum pacto
de sempre causar impacto.

Também detém um encanto
que dissolve todo pranto.

Sintético, mas gigante
como um silêncio gritante.

Quer apenas um recanto,
nem herético nem santo.
   

sábado, 6 de novembro de 2010

HORÁRIO NOBRE

A audiência aumenta, a paciência reduz,
a mocinha siliconada sempre me seduz
e o vilão das oito tem os olhos azuis;
meu Deus, aonde isso tudo me conduz?
    

sábado, 30 de outubro de 2010

MARINHO / CELESTE

                                              “Vertiginosamente azul. Azul”
                                                           (Carlos Pena Filho)

No mar bravio,
nenhum navio:
a solidão.

                                              No céu anil,
                                              o voo sutil:
                                              um gavião.

Ondas quebradas,
peixes sem nada:
resignação.

                                              Nuvens paradas,
                                              aves aladas:
                                              nenhum trovão.

O mar balança,
vem a bonança:
a recessão.

                                              Sem esperança,
                                              o ar não dança:
                                              estagnação.
    

sábado, 23 de outubro de 2010

JOSEFA

Eu mantenho os meus pés no chão,
pois sei como a vida é difícil;
nós vivemos em pé de guerra
e nem adianta lamentação,
assim é a vida aqui na terra.

Não sou uma mulher de cultura,
não tive tempo de estudar;
eu sempre trabalhei pesado,
sempre fui presa à agricultura,
sempre tive o corpo cansado.

Eu nasci no calor do sertão,
sou acostumada com o pouco;
eu troquei o livro pela enxada,
por isso não tenho educação
e não sou especialista em nada.

Posso não ter nenhum estudo,
mas tenho a minha sabedoria;
sou conhecedora da vida,
não preciso saber de tudo
para a alma ser reconhecida.

Aprendi a nunca reclamar,
só aprendi a dar graças a Deus,
todos os domingos vou à igreja,
pedir para Deus aliviar
a minha vida sertaneja.

Se não me apegar ao divino
não terei nenhuma esperança,
nem poderei sobreviver;
eu não quero que meu destino
sempre se limite a sofrer.

Eu vejo o meu próprio cortejo
e não pretendo morrer assim;
não sei como posso mudar,
mas ainda mantenho o desejo
da minha vida melhorar.

A lição que a vida me ensinou
não se aprende em nenhuma escola:
ter honra será meu cartão postal;
meu trabalho dirá quem sou;
dignidade será essencial.

Gostaria de ter estudado,
mas optei pelo meu trabalho;
ou aprendia a escrever o meu nome,
ou trabalharia no roçado
para não padecer de fome.

Enquanto não posso mudar,
continuarei com minha vida;
eu sempre farei do meu suor
algo que possa me orgulhar,
pois é o que tenho de melhor.
     

sábado, 16 de outubro de 2010

DOS CACHOS DOS TEUS CABELOS

Dos cachos dos teus cabelos
ainda fico com a esperança
de algum dia poder revê-los
como no tempo de criança
que repousava em sua orelha
alguma flor dada por mim,
em geral uma rosa vermelha,
que eu retirava do jardim;
hoje, quando te dou flores
com algum poema anexo
cheio de versos de amores
é porque só penso em sexo;
teus cabelos tão cacheados
ainda continuam uma beleza
mas são teus seios decotados
que me atraem com certeza.
     

sábado, 9 de outubro de 2010

RETRANCA BRANCA

Não, Alberto da Cunha Melo
não parou com seus octossílabos,
nem parou de experimentar
o que a linguagem oferece;

a tua morada te espera:
Recife, Olinda, Jaboatão,

todos querem te receber,
os versos contados e livres,
brancos, rimados e ritmados

— após quarenta anos de luta,
o poema que te faz oração.
   

sábado, 2 de outubro de 2010

FAST, FOOD!

Por favor, seu moço,
preciso comer,
me compre um almoço,
se não, vou morrer.

Minha fome não tem pressa,
lentamente me tortura
e nunca, jamais se espessa,

apenas cresce e perdura;
nem tento fazer promessa:
só a comida traz a cura.

Rápido, ajude
(sei que você pode),
me pague um fast-food,
que a fome me fode.
   

sábado, 25 de setembro de 2010

A DESENFREADA HEMORRAGIA DA EXISTÊNCIA

Sangra, querida Sandra,
e provas que tens vida;
mancha-me de vermelho.
Sandra, sangra querida,
lava teu sofrimento
pelo útero também,
querida Sandra, sangra
ao filho que não vem.
   

sábado, 18 de setembro de 2010

ANDAR EM PONTES

O constante olhar pra baixo,
o inevitável medo da queda.
Um único rumo no caminho,
caminho de apenas uma meta.

Caminho, aparentemente, reto,
podendo mudar-se com um pulo:
uma evasão da ponte, da vida,
uma saída, uma fuga pra tudo.

A indispensável contemplação
da paisagem vista pela ponte,
que não tem explicação sólida:
sem ter porque, nem por onde.

O andar em pontes é especial
quando na cidade do Recife,
aqui não se anda pelas pontes,
aqui se anda pelo Capibaribe.
   

sábado, 11 de setembro de 2010

HOMEM INVISÍVEL

Um homem que não habita
nenhuma memória.
Não habita em uma casa.
Não habita uma vida.
O homem invisível.
Embaixo de um viaduto,
sujo e faminto.
Mas pobre homem...
Ninguém pode ajudá-lo,
é mais um homem invisível.
  

sábado, 4 de setembro de 2010

sábado, 28 de agosto de 2010

ESTAÇÕES E CORAÇÕES

Com tantos aromas e cores,
é clara a estação das flores.
Todos estavam na espera
para ouvir os passarinhos
cantando para a primavera,
exceto eu, que sou sozinho.
— Um coração que vive em pranto,
sem perfume, sem cor, sem canto.

Eu vejo todos mais contentes
quando o clima fica mais quente.
No brilho intenso do sol,
todos aproveitam o mar,
a piscina, o futebol,
menos eu, que não sei amar.
— Um coração que não quer luz,
que, lentamente, se reduz.

As árvores mudam de cor
e todos mudam de humor.
Os homens se rendem ao sono,
muitos querem dormir mais cedo,
enfeitiçados pelo outono,
menos eu, que vivo com medo.
— Um coração que se assombra
com o vulto da própria sombra.

Todos querem se aquecer
contra o frio que faz tremer.
A chuva purifica a vida,
que sempre vai buscar alguém
para se manter aquecida,
menos eu, sempre sem ninguém.
— Um coração só e vazio
suporta qualquer tempo frio.

Um ano, quatro estações,
um homem, quatro corações.
Tudo termina e recomeça
de forma simples e direta,
devagar e sem muita pressa,
exceto eu, que sou poeta.
— Um coração de poesia,
escravo da melancolia.
    

sábado, 21 de agosto de 2010

VIVAOVIVO

Pluga-te! Joga-te na rede
e baixe tudo que veneras
em bits, megas, gigas ou teras,

mas fuja do vírus da vida:
ele corrompe solidão,
disco rígido e coração;

pode transformar o binário
em uma linguagem plural,
e lhe jogar no mundo real.

Se tiver a vontade louca
de desligar essa tomada,
a sua máquina foi infectada...

Prepare-se para sangrar
e será melhor estar pronto,
pois a vida vem ao seu encontro.
    

sábado, 14 de agosto de 2010

CACTOS

Dos cactos, a sua resistência:
convive com a privação
e faz dela sua companhia
neste mundo de negação;
mesmo assim, têm a insistência
de sobreviver dia após dia.
   

sábado, 7 de agosto de 2010

ADUBO É MERDA OU BOSTA

Adubo é merda ou bosta,
não tem nenhum lirismo,
mas qualquer jardim gosta
desse pseudorromantismo.
     

sábado, 31 de julho de 2010

HASTA LA VISTA, BABY

Parece até brincadeira — mentira, para ser franco —, mas o que vou lhe contar é verdade verdadeira. Vi Arnold Schwarzenegger na fila do terminal de ônibus com a sua jaqueta de motoqueiro e óculos escuros a me dizer: “Hasta la vista, baby”. Sacou a sua arma e com um tiro certeiro varou meu coração antes que eu lhe pedisse um autógrafo.

Arnold se vai... Fura a fila, senta na janela e ainda por cima pega o lado da sombra. Eu fico... Fico estrebuchando no chão sem ninguém perceber: é só mais um preto na merda se atrevendo a viver. Mas quem disse que eu queria a vida? A bala de Schwarzenegger não exterminou meu futuro; meu futuro já havia sido eliminado há muito tempo. O tiro do Terminator veio para me libertar. Entretanto, aqui estou com o coração vazado e nada de morrer.

Talvez só esteja lhe contando isso, por ser verdadeira a afirmação de que antes da morte se passa uma breve retrospectiva da vida. Eu vi tudo. Maldita memória que não me fez esquecer todo mal que sofri; todo mal que fiz. Eu me vi chorando as escondidas por pessoas que me rejeitaram; eu vi os olhos alheios perderem o brilho por minha causa. Era tudo tão real... Mas claro que era real! Se fosse algum filme estaria tocando Love Story e nessa história Arnold Schwarzenegger não caberia nem como figurante. Do que vi, fui testemunha e ator. Minha memória poderia até me privar de certos detalhes, mas a maldita insistia em me mostrar aquilo que aconteceu sem nenhum efeito especial.

Penso que maldizer a minha memória seja incoerente. Ela me poupou de cenas que provavelmente não são muito agradáveis, como a minha vinda ao mundo, uma tapinha no bumbum por um médico que insiste em ser chamado de doutor, e por aí vai. Amaldiçoei a minha memória por não ter tido boas histórias em vida; e, por me privar dos bons momentos da minha infância, onde é bem diferente de hoje que já se nasce com um celular pendurado no cordão umbilical.

Se a minha última retrospectiva fosse mais agradável, não estaria reclamando. Benditos são aqueles que tiveram ações para se orgulhar, cônjugues para amar, filhos para reclamar e netos para brincar! Eu — que tenho o saldo de mazelas maior do que o de vitórias — fico na obrigação de achar que nada presta para mim.

Quando os nossos ouvidos captam a marcha fúnebre que anuncia o fim, tudo muda. Não pense, você, que irá recordar dos seus bens materiais. Tudo bem que em minha carteira não havia dinheiro nem para pegar outro ônibus... Mas em momento nenhum eu pensei no pé-de-meia que juntei ou nas coisas que tinha conquistado. Pouco me importava o que iria acontecer com a minha conta bancária; não era o que acumulei em vão que me preocupava... O centro das atenções do meu coração ferido era aquilo que não iria se desmanchar com o tempo: os sonhos que não pude alcançar.

O que eu queria deixar como herança era a necessidade imperativa de continuar sempre sonhando, para assim, permanecer vivo através da memória dos outros. Que ironia! O tanto que lamentei pela tortura que a minha memória me fez nesses instantes finais, agora é substituído pelo desejo de ser ator no filme-retrospectiva da morte de outras pessoas. Só agora compreendo, o meu medo da morte não está em morrer por si só. Eu tenho medo de esquecer. Medo de que tudo que vivi se decomponha com o meu corpo que será o banquete dos vermes; medo de esquecer de minhas glórias e as minhas derrotas que tanto me ensinaram; medo de ser formatado...

E aqui estou eu, apavorado, com uma agonia que deveria estar me matando, mas só prolonga minha pseudovida. Cada segundo que passa soa como uma eternidade; já chego a me perguntar se alguém vai notar que estou baleado e semimorto... Tomara, Deus, que não! Pois eu não quero ser socorrido para a vida. Meu último desejo é que Arnold Schwarzenegger durma no ônibus, retorne ao terminal e volte para dar cabo do serviço.