sábado, 24 de abril de 2010

O TEMPO DA SOLIDÃO

Às vezes eu achava que entre todas as pessoas do mundo, eu era a mais importante que existia... Sem mim, o mundo não haveria sentido; mas quando eu refletia melhor, percebia que a minha existência não alterava nada no mundo. Foi assim que vivi por todo esse tempo: entre momentos de puro egoísmo e instantes de invalidez. A síntese das minhas incertezas era apenas uma: a solidão.

Já faz muito tempo que estou nesta estrada e percebi o quanto o tempo é cruel com os homens. Eu sempre penso que o tempo está ao meu lado... Mas, não; ele sempre jogou no time adversário. O tempo seria o meu rival? Muitos acham que é loucura da minha parte dizer que o tempo é movido pela beleza alheia. Quando eu menos esperava o meu corpo ficava marcado de cicatrizes da sua luta contra o tempo: cabelos brancos, rugas, flacidez, doenças, dores...

Todos diziam que o tempo me fazia bem, exceto o espelho. Ah, o espelho! Esse nunca mentiu para mim; sempre me mostrou o quanto o tempo me consumia silenciosamente, e como eu ficava inevitavelmente solitário. Por que o espelho é tão cruel? Ele nunca me traz as lembranças da minha juventude, traz apenas as dúvidas do meu futuro decadente.

Entretanto, o meu medo de encarar o espelho sumiu quando eu quebrei os meus olhos. Depois que comecei a ver o mundo com os outros sentidos, eu enxerguei cores que nenhuma droga poderia ter me mostrado. Mas, se eu estava em paz com as imagens que o mundo me jogava para julgar, por que eu não estava em paz comigo mesmo?

O problema não era a idade, nem o relógio — isso nunca foi nem nunca será um problema — que não paravam de avançar; a culpa não era do calendário que, lentamente, perdia os seus dias. A culpa era exclusivamente da solidão. Não eram as responsabilidades que o tempo me dava que me faziam ficar mais sério... Era o medo da solidão que controlava as minhas ações. Eu não me arriscava no amor, por ser demasiadamente responsável para fazê-lo. Eu não trilhava esse caminho porque eu já tinha tudo em minhas mãos e não queria arriscar nada. Eu não deixei de ir atrás da pessoa que amo, por falta de amor. Foi tudo mera conveniência.

Foi conveniente para mim reduzir os meus sorrisos para aumentar o meu dinheiro. Foi muito mais cômodo fingir que amo alguém, ao invés de ficar ao lado de quem eu realmente gosto. Tudo na minha vida foi cuidadosamente arquitetado para que a solidão não fosse o meu túmulo. E, de fato, não foi... A solidão que deveria ser o meu jazigo virou a minha moradia.

Às vezes eu penso que tudo o que fiz foi apenas um ensaio para algo que insiste em nunca acontecer. Solitário, fui esperando o momento certo que nunca chegava. Talvez esse seja apenas mais um ensaio para algo superior que ainda possa me ocorrer em algum tempo remoto. Hoje eu sei, a única certeza que tenho em minha consciência é que o meu tempo é esse.