sábado, 31 de julho de 2010

HASTA LA VISTA, BABY

Parece até brincadeira — mentira, para ser franco —, mas o que vou lhe contar é verdade verdadeira. Vi Arnold Schwarzenegger na fila do terminal de ônibus com a sua jaqueta de motoqueiro e óculos escuros a me dizer: “Hasta la vista, baby”. Sacou a sua arma e com um tiro certeiro varou meu coração antes que eu lhe pedisse um autógrafo.

Arnold se vai... Fura a fila, senta na janela e ainda por cima pega o lado da sombra. Eu fico... Fico estrebuchando no chão sem ninguém perceber: é só mais um preto na merda se atrevendo a viver. Mas quem disse que eu queria a vida? A bala de Schwarzenegger não exterminou meu futuro; meu futuro já havia sido eliminado há muito tempo. O tiro do Terminator veio para me libertar. Entretanto, aqui estou com o coração vazado e nada de morrer.

Talvez só esteja lhe contando isso, por ser verdadeira a afirmação de que antes da morte se passa uma breve retrospectiva da vida. Eu vi tudo. Maldita memória que não me fez esquecer todo mal que sofri; todo mal que fiz. Eu me vi chorando as escondidas por pessoas que me rejeitaram; eu vi os olhos alheios perderem o brilho por minha causa. Era tudo tão real... Mas claro que era real! Se fosse algum filme estaria tocando Love Story e nessa história Arnold Schwarzenegger não caberia nem como figurante. Do que vi, fui testemunha e ator. Minha memória poderia até me privar de certos detalhes, mas a maldita insistia em me mostrar aquilo que aconteceu sem nenhum efeito especial.

Penso que maldizer a minha memória seja incoerente. Ela me poupou de cenas que provavelmente não são muito agradáveis, como a minha vinda ao mundo, uma tapinha no bumbum por um médico que insiste em ser chamado de doutor, e por aí vai. Amaldiçoei a minha memória por não ter tido boas histórias em vida; e, por me privar dos bons momentos da minha infância, onde é bem diferente de hoje que já se nasce com um celular pendurado no cordão umbilical.

Se a minha última retrospectiva fosse mais agradável, não estaria reclamando. Benditos são aqueles que tiveram ações para se orgulhar, cônjugues para amar, filhos para reclamar e netos para brincar! Eu — que tenho o saldo de mazelas maior do que o de vitórias — fico na obrigação de achar que nada presta para mim.

Quando os nossos ouvidos captam a marcha fúnebre que anuncia o fim, tudo muda. Não pense, você, que irá recordar dos seus bens materiais. Tudo bem que em minha carteira não havia dinheiro nem para pegar outro ônibus... Mas em momento nenhum eu pensei no pé-de-meia que juntei ou nas coisas que tinha conquistado. Pouco me importava o que iria acontecer com a minha conta bancária; não era o que acumulei em vão que me preocupava... O centro das atenções do meu coração ferido era aquilo que não iria se desmanchar com o tempo: os sonhos que não pude alcançar.

O que eu queria deixar como herança era a necessidade imperativa de continuar sempre sonhando, para assim, permanecer vivo através da memória dos outros. Que ironia! O tanto que lamentei pela tortura que a minha memória me fez nesses instantes finais, agora é substituído pelo desejo de ser ator no filme-retrospectiva da morte de outras pessoas. Só agora compreendo, o meu medo da morte não está em morrer por si só. Eu tenho medo de esquecer. Medo de que tudo que vivi se decomponha com o meu corpo que será o banquete dos vermes; medo de esquecer de minhas glórias e as minhas derrotas que tanto me ensinaram; medo de ser formatado...

E aqui estou eu, apavorado, com uma agonia que deveria estar me matando, mas só prolonga minha pseudovida. Cada segundo que passa soa como uma eternidade; já chego a me perguntar se alguém vai notar que estou baleado e semimorto... Tomara, Deus, que não! Pois eu não quero ser socorrido para a vida. Meu último desejo é que Arnold Schwarzenegger durma no ônibus, retorne ao terminal e volte para dar cabo do serviço.

     

sábado, 24 de julho de 2010

ALADOS

Na máquina da vida
a solidão é o motor,
o medo é o combustível
e o operário é o amor.
  

sábado, 17 de julho de 2010

FADO INEVITÁVEL

Pensou que seria simples
se livrar de sua poesia,
achou que ficaria em paz
de uma noite para o dia.

Passaram-se vários anos,
talvez estivesse curado;
não escreveu seus poemas
e ficou mais descansado.

Deixou de lado a poesia,
aderiu a uma vida normal
e deixou de sentir a dor
para ficar lendo jornal.

Depois de fazer família,
labutar com remuneração;
percebeu o quanto era só
e que tudo é uma ilusão.

Ele aceitou que sua vida
sempre seria incompleta,
e assim gritou ao mundo:
ainda, ou sempre, poeta!
    

sábado, 10 de julho de 2010

FLORES POSTIÇAS

Das postiças, a eternidade:
sem olor, com cor desbotada
sendo comida pelo tempo;
fica solitária e empoeirada
fingindo ser flor de verdade
quando passeada pelo vento.
   

sábado, 3 de julho de 2010

CLAYDE

Desde o início, desde pequena
algo nessas estrelas me atrai,
algo nelas me dá esperança;
mas olhá-las não vale a pena,
já não sou mais nenhuma criança.

O anoitecer é o meu sustento,
porém, também é o meu carrasco;
nele que ganho minha vida,
ele me leva como o vento,
deixando-me vazia e perdida.

Ao me perder no anoitecer
encontro a solidão dos homens
que me pagam para vencê-la,
mas eu jamais irei vencer,
ficarão sós como as estrelas.

Os homens e as estrelas são iguais:
aparentemente estão próximos,
mas tudo é apenas aparência;
distanciam-se cada vez mais
com a sua pesada consciência.

O peso dentro da cabeça
tortura-lhes durante a noite
não os deixando sequer dormir,
e por mais que o bem aconteça
eles não conseguem sorrir.

Foi por me sentir solitária
que resolvi ganhar a vida
nessa tão sofrida profissão,
a escolha foi desnecessária,
pois sempre vivi sem privação.

Muitas mulheres são obrigadas
a entrar para esse sacrilégio,
pois a pobreza prevalece
obrigando-as a dar entrada
na vida que ninguém merece.

Nós somos marginalizadas,
contudo quem explora é imune
a qualquer discriminação;
nós somos amadas e odiadas:
eis o ciclo da profissão.

Eu não sei se voltarei a amar,
eu perdi a pureza do sexo
com a sujeira do dinheiro,
quando precisava transar
com quem me chamasse primeiro.

Quanto mais vivia na profissão,
mais sentia a frieza desse mundo
fui perdendo o calor que tinha;
não existe nenhuma solidão
que seja superior a minha.