sábado, 26 de fevereiro de 2011

DESPROVIDO DA SORTE

Eleve ao quadrado o azar
e assim você me obterá.

Que homem mais azarado:
em nada é contemplado.

Deus, acaso, sorte, destino...
Esqueceram desse menino?

Até na hora da morte
irá me faltar a sorte:

“o cemitério está lotado,
tente o do outro lado”.

Nem no tal ímpar ou par
tenho chances de ganhar.

Se a sorte não me quer,
vou seguir como puder.

Não vou esperar sentado
e com fé, ser sorteado.
     

sábado, 19 de fevereiro de 2011

UM FINAL A DOIS

A hora chegou, querida.
Divide comigo tua vida,
já estou desesperado,
velho, só e cansado.
E cadê você ao meu lado?
Não foi esse o combinado.
Deixa isso pra depois
e vamos ter um fim a dois...
Envelhece junto a mim
me acompanha para o fim.
  

sábado, 12 de fevereiro de 2011

BÚSSOLA

Às vezes me perco,
então, vou te ler
e evitar esterco
antes de escrever.

Antes do poema, eu paro
e escolho o verso correto,
por isso, eu peço amparo:

João Cabral de Melo Neto,
mantém meu caminho claro
e sólido, tal concreto.

Aponta meu norte
— nítido horizonte —
e com pedras fortes
constrói minha ponte.
   

sábado, 5 de fevereiro de 2011

ENQUANTO ISSO...

Enquanto a socialite pernambucana
devora camarões ao alho e óleo
e outras derivações na Praia de Boa Viagem,
bem perto dali, um homem dos Coelhos
encontra-se com outro do Coque
para interceptar a linha CDU/Cax./B. Viagem.

No exato momento que dois garotos,
um do Espinheiro, e outro dos Aflitos
batem um papo descontraído pelo computador,
uma adolescente lá de Santo Amaro,
vende o seu corpo por dez reais
para um coroa de terno e gravata.

Enquanto em uma festinha jovem,
com canhões de luz e gelo seco,
é regada a vinho e comprimidos ilícitos,
a maconha e a cola de sapateiro
correm soltas pelos semáforos e esquinas,
sem nem ter música pra acompanhar.

Durante a comoção geral da mídia
pelo jovem assassinado à queima-roupa
dentro do carro 0 Km de seu pai,
nove jovens (que são chamados de menores)
morreram em nove esquinas diferentes
velados pelo silêncio da tevê.

E, por fim, enquanto a classe alta
se prepara para o seu sono tranqüilo
em seus travesseiros de plumas de cisne,
o subúrbio, que fora excluído,
ajoelha-se e começa a sua oração
próximo a cama escorada por tijolos.