sábado, 26 de maio de 2012

MENINOS CINZENTOS

                  A Katarine Araújo

Vendendo chicletes
ou com as flanelas,
são apenas pivetes
vindos das favelas.

O sinal está fechado,
mas livre para a pobreza
avançar de qualquer lado,

com meninos sem beleza:
cinzas, magros e drogados
indo contra a correnteza.

Assim, sobrevivem,
com as pernas finas,
com tantas vertigens,
na vida assassina.
     

sábado, 19 de maio de 2012

EL SALVADOR


Se esse mundo quadrado
— de cores previsíveis —
ao menos estivesse
dentro de uma moldura
de Salvador Dalí,
nós estaríamos salvos.
     

sábado, 12 de maio de 2012

EU PERDI O MEDO DA SOLIDÃO (excerto)


Meu legado não será sólido,
logo, não ficará em ruínas:
o tempo não pode destruí-lo;
talvez meu herdeiro o negue
ou talvez firme compromisso,
com alguma débil esperança,
de experimentar esse veneno
que a solidão sempre impõe.
Meu legado não será sólido,
sua construção foi paulatina
e crescente: quilo a quilo;
e já está para ser entregue:
é o que fiz, nada além disso,
o patrimônio dessa herança
é insignificante, é pequeno.
Meu legado não será sólido:
será o que o mundo ensina,
o que aprendi ao persegui-lo;
toda a construção se ergue
graças ao meu árduo serviço,
o qual faço desde criança.
Meu legado não será sólido,
a solidão (a minha vacina),
guiará o meu futuro pupilo
para que meu corpo sossegue
e que nem tudo fique omisso.
Meu legado não será sólido:
a solidão será a lamparina
alumiando — ao seu estilo —
tudo que meu sonho persegue.
Meu legado não será sólido,
será feito por uma chacina:
nenhum fraco irá senti-lo.
Meu legado não será sólido,
pois o fiz contra a rotina.
      

sábado, 5 de maio de 2012

DO FIM PREVISTO


Rapaz de sorriso largo,
favor, ouça meu conselho:
mira tua face no espelho,
veja como estás amargo.

Cadê teu sorriso, fedelho?
Hoje choras sem embargo,
recusando qualquer cargo
do teu passado vermelho.

Sei, não mudaste de lado,
preservas tuas atitudes;
apenas estás cansado.

Cansado da juventude,
de correr sem resultado
contra a “geração-saúde”.