sábado, 29 de setembro de 2012

ATENDO A PORTA, ERA A RESSACA

Atendo a porta, era a ressaca
me dando um tapa no pé do ouvido.
Eu, acompanhado de uma vaca
com cara de feliz e fedendo a mijo.
Trocando pernas e cantando Rossi,
com a alegria injetada na veia.
Percebo, em meio a minha tosse,
que o jardim me olha de cara feia.
Talvez esteja dando pouca atenção
para o meu tão florido jardim.
Quando estiver um pouco mais são,
vou amá-lo como se fosse o fim.
        

sábado, 22 de setembro de 2012

SEM MAQUIAGEM


Dizem que ele é muito forte,
que nem tinha medo da morte.
Mas o seu coração não é de aço,
se escondendo atrás da piada,
nem o seu ofício de palhaço
autoriza alguma risada.
— Quando o seu rosto está pintado,
como o poeta, é amado.

Nunca teve muitos amigos,
só a sua sombra anda consigo.
Dividindo a vida meio a meio:
um lado vive na solidão
o outro lado, no riso alheio;
são dois homens em um coração.
— Sem a maquiagem é anônimo,
como o poeta sem pseudônimo.

O palhaço, mestre do riso,
era movido por sorrisos.
Mas com uma piada sem graça,
fica reduzido ao ridículo;
sente uma dor que nunca passa,
como pancada no testículo.
— O palhaço mostra suas cores,
como o poeta, as suas dores.

O palhaço ganha coragem
quando está com a maquiagem.
Ele não sente nenhum medo,
parece ser uma pessoa pura
que não esconde seus segredos;
faz do seu trabalho, sua cura.
— Ele só sabe trabalhar,
como o poeta, só chorar.

Quando põe o nariz vermelho,
sonha, encarando o espelho.
Às vezes pensa em desistir,
mas pensa ser tarde demais,
pois se pararem de sorrir,
ele não ficará em paz.
— Ele tenta deixar de ser,
como o poeta, se perder.
      

sábado, 15 de setembro de 2012

VEM E FAZ


Vem retomar o que é teu
e exige todo meu amor,
pois nem tudo se perdeu:
ainda resta algum calor.

Vem para fazer
o que desejar
sem se recolher;

faz para mudar,
pois o meu querer
poderá aumentar.

Faz tudo que for possível:
destrói todos os meus planos
e se torne imprevisível
como nunca nesses anos.
   

sábado, 8 de setembro de 2012

NA AVENIDA


Pequeno cidadão esperando
avermelhar a luz do sinal
para atravessar a avenida,
se distraiu lendo o jornal
e colaram-lhe um panfleto
bem na sua espinha dorsal.

Assustou-se quando leu:
“Vote certo, vote Juvenal!”
Irritou-se e logo perguntou:
“Quem se atreveu a tal?”
Como todos assim estavam,
julgou ser algo normal.

Logo começou a desconfiar
quando avistou um animal
adesivado por todo o corpo,
lhe lembrava um carnaval;
existia mais propaganda
do que cana num canavial.

Assustado com tudo aquilo,
pensou ser um sonho surreal
e beliscou-se para acordar:
nada mudou, pois era real,
era o mais bizarro pesadelo
de uma campanha eleitoral.
        

sábado, 1 de setembro de 2012

QUARTO


No meu quarto não há seu cheiro,
o vento o carregou pela janela
e seu perfume saiu do travesseiro;
não encontro sua toalha amarela
nem na cama e nem no banheiro...
Algumas vezes, eu até estranho
ficar sozinha sob o chuveiro,
sem compartilhar o meu banho.

Roupas e livros estão pela metade,
hoje só arrumo um lado da cama;
eu já partilhei tanta intimidade
que não vou fazer nenhum drama:
foi tudo fruto da nossa vontade...
Pena, não teres visto o criado-mudo
e o abajur que compramos na cidade,
chegaram depois que dividimos tudo.