sábado, 27 de outubro de 2012

GAROTINHA DE PROGRAMA


Troca de sonho, menina,
levanta para a labuta:
bate teu ponto na esquina,
pobre jovem prostituta.

Menina da vida,
menina da rua,
na noite perdida;

sob a luz da lua,
outra vez vendida,
mais uma vez nua.

O teu corpo tão pequeno
tem um destino difícil,
pois provaste do veneno
amargo do meretrício.
   

sábado, 20 de outubro de 2012

RESPONDA, PAI / ESCUTE, FILHO


— Como pode a vida
não poder ser vivida
e ninguém reclamar?

                                              — Nem sempre há saída:
                                              aceitar a medida,
                                              para depois negar.

— Todos nós, conformados,
aceitamos calados
e por quê não lutar?
                                              
                                              — Não estamos armados,
                                              porém, engatilhados:
                                              prestes a disparar.

— Nós estamos submissos;
por que prestar serviço
a quem vai nos matar?

                                              — Não estamos omissos,
                                              o nosso compromisso,
                                              não iremos largar.
      

sábado, 13 de outubro de 2012

O SOL QUE VEM DO POENTE (excerto)


Talvez tenha sonhado tanto
ao ponto de menosprezar
o poder dos raios solares,
mas sempre soube o que fez.

E também conhecia,
pelo seu saber prático,
que “o sol está no centro
e sempre está ‘estático’:
a Terra que se mexe”
— diz o livro didático.

Também tinha conhecimento
de diversas informações
que para mais nada serviam
a não ser talhar o seu sono.

Mesmo sendo minúsculo,
consegue ser maroto:
sabe sair da lama
e sair do esgoto;
por isso não desiste
da luta, o garoto.

Sem ingenuidade nenhuma,
não se deixou intimidar:
o jovem cobriu-se de sonhos
ao descobrir o seu poder.

O garoto já pode
ao menos ter certeza:
que mesmo sendo fraco
pode virar a mesa,
pois, toda sua força
vem da sua fraqueza.
    

sábado, 6 de outubro de 2012

ANTES MEMÓRIA QUE MATÉRIA


É dos teus olhos pra dentro
que sinto meu alumbramento.

São tantas marcas de tempo
em teu corpo envelhecendo.

Tua carne cada vez menos,
mas internamente incêndio.

Teu charme é mais intenso
sem a matéria que lembro.

O que tens em pensamento
é o encanto qual me rendo.