sábado, 29 de dezembro de 2012

Vídeo — SEDUÇÕES CAPITALISTAS


sábado, 22 de dezembro de 2012

O SOL QUE VEM DO POENTE (excerto)


O que leva poucos segundos
se prolonga na utopia,
assim era essa peleja
travada no quarto do jovem.

A cama desforrada,
as roupas pelo chão,
os brinquedos expostos
expõem o coração
que está em puberdade,
explodindo paixão.

No quarto banhado de luz,
apenas a janela traça
uma linha imaginária
que divide sonhos e vida.

O quarto do garoto
— o palco principal
dos sonhos do menino —
torna-se o canal
onde o imaginário
transforma-se em real.

Mas, e fora daquele quarto,
os seus sonhos sobreviviam
ou se desmanchavam no ar
diante da realidade?

Viver para o garoto
não tem nenhum segredo,
seus sonhos eram sonhos:
sabia medir seu medo;
Deus é uma criança,
o mundo, seu brinquedo.
     

sábado, 15 de dezembro de 2012

HORTÊNSIAS AUSENTES


Eu cultivei versos
para colher flores,
eu pintei meus sonhos
com todas as cores,
pois era preciso
perder meus temores.

Os versos plantados
foram coloridos,
porém, os meus sonhos
não foram colhidos:
o monocromático,
assim, exibido.

Das flores que vi,
eu senti a ausência
da flor dos meus sonhos:
nenhuma hortênsia;
eu troco o final
pelas reticências.

Meu olhar distante
vaga no horizonte,
nenhum dos meus sonhos
brilharam no front:
fogem as hortênsias,
racham-se as pontes.

Sem flores nem cores,
resta o cinzento;
sem versos nem sonhos,
falta sentimento;
precisei plantar
flores no cimento...
    

sábado, 8 de dezembro de 2012

PORTEIRO


Não se chama Pedro por ironia,
assim como o porteiro celestial,
ele é o primeiro a dar bom dia
e comentar a manchete do jornal.

Tanto é porteiro, quanto é vigia:
duas funções num único salário,
se lhe dessem outro cargo, aceitaria,
desde que reduzissem seu horário.

Pedro fica o dia inteiro sentado,
mas a fadiga percorre o coração
como se tivesse o serviço dobrado,
cansaço que só ataca na solidão.

No almoço, Pedro se reconstrói,
está cercado de sua simplicidade
sem a fadiga que tanto lhe corrói,
a refeição lhe renova a vontade.

À tarde, Pedro começa novamente:
primeiro o tédio, depois o cansaço.
E antes do final do expediente
já sonha com sua rede no terraço.

E já se balançando na rede
Pedro percebe que nada mudou:
olhou o teto, o chão, a parede
e apenas a solidão encontrou.

Nem bichos, nem filhos, nem mulher.
Três ou quatro amigos do dominó.
Sem companhia para tomar café.
E noite adentro Pedro ficava só.

Se a solidão lhe trazia cansaço,
ele se cansava mais em seu abrigo,
pois no trabalho, naquele espaço,
ao menos alguém finge ser seu amigo.
     

sábado, 1 de dezembro de 2012

TRANSGRESSÃO NÃO PRECISA DE INSTRUÇÃO

Há o escritor que acredita
Que, bem, só ele é que leu
E repete a toda hora:
‘O grifo é meu’.
(Millôr Fernandes)
  

 Penso que a obscuridade do texto poético e as lacunas deixadas pelos autores são as plataformas de embarque para a viagem que a leitura nos permite. Como leitor, gosto de completar o que leio com as minhas próprias experiências (ou falta delas). Um poema completo jamais existirá, porque não cabe ao poeta finalizá-lo.
Quem não entender que se dane”, assim sentenciou Hélio Oiticica, em 1971, na imprensa carioca. Entender um poema não é descobrir a fonte de origem dos versos ou desvendar a biografia do autor, mas sim, nutri-lo de sentidos ao bel prazer de cada um. E depois nada como uma mesa de bar ou uma roda de fumo fino para dialogar cada ressignificação dada à obra.
Entretanto, há autores que jogam um balde de água fria em quem os leem, deixando todos de asas presas para alçar voo. Por pretensão ou ingenuidade, os que assim agem, voluntariamente ou não, acabam deixando a poesia subserviente à normalidade. Por ser arte menor e uma penetra na festa do mercado, a poesia tem mais é que transgredir. Usar e abusar da imaginação do leitor.
Pensando o poema como uma mancha gráfica, tal qual Leminski, ou em um delírio tipográfico, a la Mallarmé, a escolha e o uso das palavras é fundamental. As ferramentas de caixa alta, negrito, itálico, parênteses e aspas são recursos disponíveis para a fluência do texto, e usados a torto e a direito por muitos concretistas (ou assim autointitulados). Tudo bem, tranquilo, concordo. Mas às vezes um destaque desnecessário, na palavra, tira o gostinho da descoberta pelo leitor.
Conforme canta Arnaldo Baptista: “Eu quero mais é decolar toda manhã”. Não preciso, portanto, de gritos nos meus olhos ou guias de como eu devo ler o poema. Também sou plenamente capaz de perceber cada olé que for dado na gramática. Se Manoel de Barros ou João Guimarães Rosas viessem com manual de instruções, eles não seriam quem são, afinal.