sábado, 26 de janeiro de 2013

DESCRIÇÃO INDISCRETA


Após o jardim,
observo teu corte
exalando em mim
o seu cheiro forte.

Os seus lábios que não falam
se abrem, então, vejo a rosa:
todas as vozes se calam,

não há porque qualquer prosa;
as pétalas suplicaram
uma língua carinhosa.

A rosa salgada
abre-se em tesão.
ficando molhada
na penetração.
    

sábado, 19 de janeiro de 2013

EU PERDI O MEDO DA SOLIDÃO (excerto)


Sou apenas alguém solitário,
não pretendo ser diferente,
porém, não quero ser igual,
não desejo ser o mais forte
nem ser melhor que ninguém;
tenho como único critério
dançar conforme o meu modo,
sem me importar com a música.
Sou apenas alguém solitário
— como também é muita gente —
que fez da solidão a ideal
e a mais perfeita consorte;
vivo como melhor me convém:
isso me faz ser um mistério,
há muita gente, eu incomodo.
Sou apenas alguém solitário,
eu não tenho em minha mente
nenhum sonho em ser especial,
ou quem sabe de ter a sorte
de encontrar e amar alguém
para construir um império.
Sou apenas alguém solitário
buscando um jeito eficiente
para se curar de todo o mal,
antes da chegada da morte
que me guiará para o além.
Sou apenas alguém solitário
que descobriu, recentemente,
que ninguém enviará o sinal
para seguirmos nosso norte.
Sou apenas alguém solitário
que está na linha de frente
contra tudo o que é banal.
Sou apenas alguém solitário
que aprendeu a ser contente.
      

sábado, 12 de janeiro de 2013

PELO DIREITO DE SER BOM

O medo superou todas as possibilidades. (...)
Nos deu sapiência para saber que a poesia
Não põe mesa na terra dos fracos.
(Lucas Holanda)


Se um bom professor consciente da sua capacidade profissional, do trabalho que realiza em sala de aula, e do seu valor social, disser: sou bom, acho que nenhum filho da puta vai olhar torto ao honrado cidadão. Policiais, advogados, jardineiros, jornalistas, prostitutas, ou seja lá o que for, também têm esse direito(?) de demonstrar a sua utilidade pública.
Entretanto, entre nós existe uma categoria maldita que vive andando pelo mundo de cabeça baixa; que, quando muito, classifica o seu trabalho como razoável. Platão estava certo, essa galera realmente não deveria ter vez.
Se é realmente ruim a “arte” literária de uma pessoa que, em pleno gozo de juízo, todos os dias vai à sua estante ou dá um rolê pelas bibliotecas para ler clássicos, bem como todo santo dia liga seu pecezinho e navega atrás de novidades, tomando notas e rabiscando um ou outro poema de vez em quando, e bate papo com quem também tá na mesma missão, e mesmo assim a sua arte literária continua ruim... então realmente temos um profissional em incompetência.
Agora, se o poeta faz o seu dever de casa e diz: sou bom, a casa cai. Garanto que vai ter gente sem levá-lo a sério, gente pra diminuí-lo ou algum “bom” cristão pra lhe enfiar uma colherada de humildade goela a baixo. E sabe qual é o resultado? Porco capitalista curtiu isso. Taí um mercado editorial perverso colocando o cabisbaixo poeta no seu lugar.
Bukowski falava que a autoconfiança excessiva e o não se por em dúvida geram obras ruins. Tudo bem, tranquilo, concordo. E muita gente morreu sem saber a grandeza que deixou. Não adianta dizer que é o tampa-de-crush. É a obra que deve se impor. E por vezes ela não está inserida dentro dos padrões estéticos ou ideológicos de seu tempo.
Mas se não houver uma voz, mesmo que interna, baixinha, longe, dizendo: eu posso, vou tomar o que é meu, já era. Menos um poeta no mundo. Ainda bem.
     

sábado, 5 de janeiro de 2013

BALADA PARA LOUCOS


Tu és a intera pro meu zareu,
um diamante no meio do céu,
minha salvação;
porra-louca, boca-de-mel,
o meu motivo de ser fiel,
minha curtição.

Tu és um doce na cachoeira,
conversa sem eira nem beira,
sol do meu verão;
sexo no mato a noite inteira,
roda de viola na fogueira,
a melhor canção.

Tu és um cogumelo no estrume,
um segredo que não se assume,
o meu coração;
és hábito, vício, costume,
universo que se resume
numa piração.