sábado, 25 de maio de 2013

“Mais lenha para queimar na fogueira poética da cidade”

Por: Wellington de Melo

Confira a entrevista que fizemos com o poeta recifense Fred Caju. Fred é idealizador do projeto Castanha Mecânica, cujo foco é a prestação editorial independente e a distribuição de e-books de poesia e afins.


Você recentemente recebeu menção honrosa no Prêmio Pernambuco de Literatura com o livro “Arremessos de um dado viciado”. Poderia falar sobre a estrutura do livro?
 
Borges disse a Ronald Christ que um poeta tem, talvez, cinco ou seis poemas para escrever, e assim ele vai erguendo sua construção poética ao longo da vida. Em 2011 quando me vi formado em História, mas sem tanta instiga para exercer a profissão, revisei tudo que já vinha escrevendo e percebi que a conta do escritor argentino estava muito próxima da minha realidade; como estava com tempo livre para me distrair em prol da poesia, resolvi fazer tudo do zero ao invés de criar uma “antologia de engavetados” (embora tenha aproveitado algo entre 2009 e 2010 – três poemas dos sessenta que compõe o livro, sendo preciso). Me criei lendo João Cabral de Melo Neto e pensar em números para estruturar uma obra poética nunca me pareceu algo estranho. Chegar à figura do dado como imagem central para a obra foi determinante. Um dado apesar de ser rigorosamente exato em sua organização é completamente refém do acaso. Cada face do dado dentro do livro gira em torno de uma temática, e cada lance representa um eu-lírico. Ao longo do livro o dado é arremessado em dez momentos e às vezes uma mesma temática é trabalhada por vozes diferentes. O “Arremessos de um dado viciado” é composto por seis temas para dez vozes.


Como você analisa a cena literária de poesia no Recife hoje?

O Recife continuará sendo palco de poesia de qualidade por muito tempo. Se falar em cena, for pensar nos poetas que estão sob holofotes e microfones, acho que estamos bem servidos. E desde muito tempo. Mas é algo muito multifacetado: vejo poetas atuando fortemente com panfletos e zines, com webloggers e outras plataformas digitais (como é o meu caso), coletivos se organizarem através de recitais independentes, os crescentes grupos que se articulam através de editais e também bons poetas com perninhas cruzadas palestrando em livrarias. Entretanto, sei também que há algo maior no subsolo recifense e suas adjacências: tem muita gente com ouro na gaveta ou em pequenos círculos de amigos que podem não emergirem por falta de condições, ou simplesmente por não quererem. Walter Moreira Santos, um dos vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura, por exemplo, tem um considerável currículo de premiações e é pouco visto em eventos literários no Recife; Daniel Lima, vencedor em 2011 do Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional, é outro exemplo que passou a vida no underground das badalações. Daí penso na importância de concursos literários desburocratizados.

 
Há uma tradição de poesia urbana na cidade. Você acha que há uma renovação desse segmento?

Acredito que sim. Nós somos a cidade e se ela se metamorfoseia, é sinal que estamos mudando. Se para melhor ou pior, se espontaneamente ou compulsoriamente, são outras questões. A cidade é um ponto de pauta para qualquer poeta responsável. A repetição de provincianismos anacrônicos (entram aqui questões políticas, ideológicas, estéticas, etc., etc.) é um lugar-comum que deve ser combatido dentro da poesia.




Que estratégias você usa para fazer circular o seu trabalho?

Desde de 2010 que mantenho um blog na internet onde não preciso chatear ninguém. Chama-se Sábados de Caju (http://fredcaju.blogspot.com.br/). Como o nome sugere, é atualizado apenas uma vez por semana. Lá tem todo material que edito: e-books, vídeos, panfletos digitalizados, poemas que recebo de presente, e evidentemente, poemas que escrevo. Estou pela internet desde 2006 com o Cronisias (http://cronisias.blogspot.com.br/), mas antes de 2009 não tinha nada autoral nele, apenas a “curadoria” do que leio e gosto; o responsável em colocar meus poemas na rede foi o poeta D.Everson (http://simulacropoetico.blogspot.com.br/), que me chamou para contribuir no coletivo Poetas de Marte (http://poetasdemarte.blogspot.com.br/), onde, de certa forma, eu já estava lá. Atualmente tenho trabalhado como editor no projeto que fundei, o Castanha Mecânica (http://www.castanhamecanica.com.br/), uma livraria virtual com ênfase em literatura, consultoria e prestações editoriais independentes, que em breve estará trazendo mais lenha para queimar dentro da fogueira poética da cidade. A aposta do projeto é em e-books.

 

sábado, 18 de maio de 2013

Podia ter te amado
ao som de Fagner,
mas eu tava junkie,
calado e distante.

Cê nem dava bola.

Mas a coisa mudou:
hoje tô mais limpo
e você mais suja;
Orós tá na agulha.

Vem deitar comigo?
     

sábado, 11 de maio de 2013

Vídeo — VAGAR


O vídeo faz parte do poemário inédito “Arremessos de um dado viciado”, que recebeu menção honrosa no Prêmio Pernambuco de Literatura.
      

sábado, 4 de maio de 2013

JAQUELINE


Um rio que corre para o mar
tem um caminho previsível,
pois não dispõe de alternativas,
sempre terá que se encontrar
com outras águas receptivas.

A minha vida é como as águas,
levará sempre ao mesmo fim;
eu sou como um rio caudaloso:
escuro e poluído por mágoas
e claro e limpo onde é valioso.

Deságuo no mais triste oceano,
que é a moradia de muitos como eu;
um mar de grande imensidão
onde está o medo dos humanos:
a mais profunda solidão.

Eu sou como a água da torneira:
útil apenas por minutos,
depois retorno ao encanamento;
minha importância é passageira,
de fixo, apenas o esquecimento.

Também sou como a água pluvial:
eu sempre vou caindo lá do alto
em movimento decadente,
a queda faz parte do normal,
já fiz da derrota um parente.

Quem me dera ser a cachoeira
para ser destaque no rio;
ir no embalo da correnteza
com suas águas aventureiras
que não conhecem a tristeza.

Contudo, minha água é parada
e triste como a de um açude:
não ocorre nenhum movimento
e jamais acontece nada,
só sou sentida pelo vento.

Não obstante, minha inércia é total
como a água de um poço profundo,
onde só se encontra a escuridão
e o silêncio se torna banal
no meio de toda essa solidão.

Porém, a lágrima é o que sou:
é triste, todavia é sincera;
represento toda a pureza
de quem, de fato, um dia já chorou
(seja de alegria ou de tristeza).

Todo rio corre para o mar
e será para lá que eu vou;
eu buscarei por algum cais
o qual me permita ancorar
e recuperar minha paz.