sábado, 31 de agosto de 2013

Três colagens para uma imagem

Médicos de Fortaleza vaiando e chamado cubanos de escravos, 26/08/2013 (via Pragmatismo Político)

“quanto mais sei
mais sinto
vergonha”

(França / História da Humanidade)

“(...)
Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.

Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho
ímpar.”

(Drummond / Igual-Desigual)


“(...)
Tá me ouvindo bem?
Hein seu branco safado?
Ninguém aqui é escravo de ninguém.”

(Marcelino Freire / Trabalhadores do Brasil)
   

sábado, 24 de agosto de 2013

COÇANDO O SACO NO SOFÁ


Coçando o saco no sofá
por volta das dezoito horas,
ofendendo o horário nobre
das famílias das senhoras.
Roncando como um porco
sendo sacrificado no natal,
dando minha devida atenção
à TV e ao Jornal Nacional.
Desse horário em diante
vou me dedicar à poesia,
escrevendo e reescrevendo
cada vez menos por dia.
Já estou na madrugada
e o sono me dá um coice,
sou desafiado para entrar
nessa vã briga de foice.
Vencida a minha batalha,
eu me mantenho acordado,
já pelas duas da manhã
com o coração apertado.
Espero mais meia hora,
aí ela chega bem devagar
e eu correndo como louco
com um balde a carregar.
Duas horas mais tarde,
termino de regar o jardim
e de encher reservatórios,
vou chamar o sono pra mim.
     

sábado, 17 de agosto de 2013

POR UM CINZA MENOS TRISTE

                  A Marina de Arruda Padilha


Mesmo que ninguém se lembre
das cores que em mim existe,
eu lutarei — como sempre —
por um cinza menos triste.

Em minha aquarela
há todas as cores
para qualquer tela;

pinto minhas flores,
pois a mão pincela
meus poucos amores.

Sei o que desejo pintar:
quero o cinza da neblina,
todas as cores do mar,
da mais banal à mais fina.
     

sábado, 3 de agosto de 2013

POR UMA METAPOESIA MAIS INTELIGENTE (OU MAIS INERENTE)

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais.
(Manuel Bandeira)


Já que estamos no único blog interplanetário das Américas, e portanto, conectados à internet, nada nos custa utilizar a melhor ferramenta de coleta de dados pessoais — digo, de buscas — da rede para melhor nortear as próximas linhas. Pois bem, utilizando-se do buscador, logo na primeira página de pesquisa encontraremos que “metapoesia” é a poesia enquanto poesia. Tudo bem, tranquilo, concordo. Com o conceito em mente, que tal agora parar e pensar nos seus usos e abusos?
Cresci lendo um perito no assunto: João Cabral de Melo Neto, e não demorou muito fui parar nos versos do Alberto da Cunha Melo. Antes mesmo de parar para pensar no que Cabral queria dizer com “Poesia te escrevia:/ flor! conhecendo/ que és fezes. Fezes/ como qualquer” ou ver Alberto realizar a sua Oração pelo poema. Achava interessantíssimo o modo como ambos tratavam a poesia quando não faziam nenhuma menção à própria. Estava tudo tão inerente, pra mim, que seria um pleonasmo pensar nesses pernambucanos escrevendo metapoemas.
Acredito que nos poetas há uma constante preocupação com o exercício de escrever e que essa preocupação pode e deve ser “engessada” a qualquer tema imaginável. Ora, para que raios o leitor precisa saber que escrever um poema é assim ou assado para um poeta? Penso que a metapoesia pode ser incorporada de uma maneira muito mais próxima de quem lê, de modo que os universos do transmissor e do receptor se encontrem em um objeto comum.
Fazer uma metapoesia voltada para os trejeitos e artimanhas de quem escreve serve apenas para engrossar a triste estatística — sem base numérica nenhuma, a não ser nas minhas pretensiosas observações — de que o maior público dos poetas são os próprios poetas.
Não sou dos que escrevem para póstumos, não tenho medo de sofrer a contestação dos vivos. Sei que é o leitor a parte mais importante da recepção do poema e ele quem determina a qualidade da obra, mas o poeta não deve se eximir da sua responsabilidade ao escrever. Sei também que, voluntariamente ou não, há poetas capazes de pôr em prática, sem pedância, as suas agonias para quaisquer públicos.